Fatos históricos de Piripiri: conheça um pouco da triste história da finada consolação

A FINADA MARIA DA CONSOLAÇÃO

 

Maria da Consolação de Sousa Lustosa era uma jovem integrante de uma tradicional família Piripiriense nascida em 16 de agosto de 1962. Em 1980 era, ainda, uma estudante do Ginásio Aderson Ferreira que gostava de jogar handebol, considerada por muitos uma bela moça, na flor de seus dezessete anos de idade, quando, em 1° de agosto daquele ano, resolveu ir visitar parentes que moravam na zona rural. Saiu de Piripiri em um caminhão misto do Senhor Otton, no qual, depois de viajar cerca de cinco léguas, veio a descer na localidade Cortadas. Era ali que estava marcado para alguém ir lhe buscar, mas como ainda não haviam chegado, o jeito era esperar, afinal, dali para o Baixão, onde moravam o avô e uma tia, era bem mais de uma légua.

Logo depois que a jovem desceu, um homem pediu parada um pouco mais a frente no mesmo lugar. Suas intenções não eram boas.

Quando o caminhão sumiu na estrada e ficou ele ali sozinho com a moça naquele lugar isolado, parte ele para cima dela e começa a querer agarrar e beijar a menina. Logo ele a domina e a arrasta para o meio do mato, onde veio a praticar por largo tempo ações terríveis que envolvem cortes, estupro, tortura, decepamento de um braço, extração dos olhos, e outros atos sádicos que levariam a jovem à morte. A tortura envolvia inclusive a exposição prolongada ao sol, afim de causar à jovem sede.

Mesmo depois da morte ele ainda praticou ações sádicas típicas de um monstro capaz de causar arrepios até mesmo em um experiente repórter policial ou em um imaginativo escritor de livros de terror, de modo que deixo de explicitar os pormenores por não ser o desejo deste texto causar repugnância ao leitor, tendo abusado o cadáver física e sexualmente.

Passados cinco dias, o corpo já estava quase todo decomposto, de modo que, só então, o bandido deixou o corpo da moça descansar em paz, abandonando-a naquele lugar.

Em 11 de agosto de 1980, um homem passando pela estrada ali perto, sente um cheiro horrível de algo morto e vê os animais descendo do céu para a moça devorar. Aproximando-se mais vê os restos mortais de uma pessoa. Assustado, corre para avisar o povo da vizinhança que alguém havia sido morto ali naquele lugar.

Logo descobrem tratar-se da jovem Consolação e o assassino não demora a ser descoberto, pois muitos lembraram quem havia descido ali perto da menina, enquanto o caminhão seguiu para Esperantina.

Os restos mortais da moça foram colocados em um caixote, no qual foram levados até o hospital para serem examinados por um médico. Após isso, foram entregues à família que os levou ao cemitério São Francisco, em Piripiri.

O bandido foi capturado e, por pouco, escapou de um linchamento público, tendo sido amarrado e entregue às autoridades policiais. Foi julgado e condenado. Cumpriu pena e, ao ser posto em liberdade, sumiu da cidade.

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capa do livro de cordel publicado à época por Joaquim Batista de Sena.
O povo nunca esqueceu da jovem Consola, como era chamada Maria da Consolação, que, ao que contam, era uma moça muito boa, amiga de todos, excelente aluna e ótima jogadora de handebol. Até hoje, seus contemporâneos, guardam uma revolta dentro de si por tamanha crueldade que a menina sofrera.

O sofrimento da jovem foi tanto e causou tanta comoção que, dado o imenso martírio sofrido, o povo conta que Deus dela apiedou-se, e deu-lhe o poder e a graça de, ela que tanto sofreu, ajudar aos sofredores conterrâneos seus, de modo que o povo passou a ter a moça como uma alma milagrosa. Nos anos 80, pouco depois de sua morte, fixaram no local uma cruz. Ali e em seu túmulo no cemitério começou a peregrinação: as pessoas pediam e, depois voltavam pra agradecer as graças alcançadas.

Os agradecimentos são os mais diversos. Segundo Margleysson Barroso de Andrade, “Predominam entre os objetos deixados, partes do corpo esculpidos em madeira, gesso e argila, roupas, flores, litros com água. Uma das formas mais comum é o deposito de provas e cadernos escolares deixados por estudantes, os devotos usam as missas como forma de agradecimento, oferecendo-as a alma da Finada Consolação”. O próprio santuário construído no local da morte da jovem, na fronteira entre Piripiri e Brasileira, é fruto da devoção à jovem falecida.

Até os dias de hoje a peregrinação continua. O povo ainda sustenta a santidade da jovem moça. São muitos os que dizem ter alcançado uma graça ao recorrer ao auxílio de Consola. Também permanece o sentimento a dor, revolta e irresignação. Como aceitar afinal tamanha maldade contra uma alma tão jovem? Acredita o povo dali, que o monstro de Piripiri, o psicopata assassino, ainda tem muito a pagar.

Joaquim Batista de Sena, poeta cordelista daquela região, assim se refere ao bandido:

“Se a justiça da terra

Perdoar este assassino

O remorso te persiga

Contra o teu feroz destino

Jesus Cristo te condene

Lá no tribunal divino”.

Em seguida o poeta conclui suas rimas com o seguinte texto (que também servirá, aqui, de conclusão ao presente):

“Quem passar naquele ermo

De longe observa a cruz

Da mártir Consolação

Grande serva de Jesus

Que das trevas do pecado

É ela o poste de luz”.

“E quando cair a chuva

Das nuvens do céu, impirius

Dos brolhos daquela mata

Rebentarão todos lírios

Para enfeitar o cruzeiro

Da devota dos martírios”.

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Agradecimento de fiel à alma milagrosa da finada Consolação.
TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro

FOTOS: Evonaldo Andrade

FONTES:

SENA, Joaquim Batista de. HISTÓRIA DO ASSOMBROSO CRIME DO MONSTRO DE PIRIPIRI (poesia de repente de cordel). Piripiri: mimeo, 1980.
ANDRADE, Margleysson Barroso de. MATERIALIZAÇÃO DA FÉ: OS EX-VOTOS DA FINADA CONSOLAÇÃO EM PIRIPIRI-PI. Teresina: CCHL/UFPI. Disponível em: <http://www.uespi.br/prop/siteantigo/XSIMPOSIO/RESUMOS/producao/CCHL%20-%20PRODUCAO%20CIENTIFICA.pdf>. Acesso em 17 de maio de 2017.
Informações, via facebook, de Evonaldo Andrade.